A gravidade atrai os corpos
Segunda-feira, 23 de Abril de 2007
Sedimento

Houve um tempo em que a luz parecia ser o lugar definitivo.

Todos os caminhos se lhe dirigiam e não havia dúvidas.

Cada passo que se dava tinha-a por projecto e o que ainda não era, haveria de ser.

Pela luz passavam todos os sinais e toda a esperança.

Era impossível admitir, sem luz, mais do que o inferno.


No meu rotineiro caminhar para o alto estava implícita a luz.

Lá de cima, do topo, da distância, emanava a luz e a clareza.

Era assim para mim e para todos, e não havia outro caminho.


No prosaico rolar da gravidade adivinhava-se o refluxo da escuridão.

Descia, e o deslizar inclinado do destino era o assombro.

Em baixo, no fundo da montanha, a escassa luminosidade era disputada com a morte.


Na pena de subir e descer, os deuses tinham engendrado o maior dos sofrimentos:

Conhecer a luz e ter de a abandonar pela escuridão.


Outras penas há em que a pena se reduz por não saber que se pode viver sem pena.

Ou, a pena só é pena quando se lhe conhece a ausência.

Reconhece-se, por isso, que a ignorância é uma sorte.


Mas não é por isso que os poderosos manipulam a luz.

Querem apenas o equilíbrio rudimentar que evita a violência da revolta.

Luz quanto baste para algum desejo.

Luz tão pouca quanto a necessidade.


Depois foi a catástrofe do ultravioleta.


A luz já não é luminosa e o topo da montanha já não salva.

Os passos que se dão para subir não se distinguem do descer.

Na profundidade das masmorras vêem-se os pormenores de um rosto com rigor atómico.

E o que se sabe tem o mesmo valor do que não se conhece.


Os homens sentam-se às escuras para combinar os assaltos e as orações.

Rebuscam no lixo, com as mãos nuas, e alegram-se da sua precaridade.

Soltam uma gargalhada rugosa e o solavanco bestial fá-los felizes.

Despedaçam com os dentes os mistérios, os segredos e as frustrações.

E dizem, sempre que podem, que é assim que a vida é.


Passo por onde posso com um sorriso, para que não me sigam.


Sísifo


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publicado por prólogo às 22:29
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