A gravidade atrai os corpos

Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008
Eco

Muitas vezes é melhor o silêncio.

Uma banal ausência presente.

Ou o contrário.

Jogo de palavras que se não dizem para não acordar dormências ou sonhos.

Passa-se sobre o ranger inquietante do soalho a ouvir fantasmas.

Acontece sempre tudo no silêncio.


Portas que batem, ferrolhos que correm, chuva cansada.

No silêncio ouve-se o impossível.

Há segredos a fugirem no murmúrio do ar.

Um brisa improvável e passos a descer a escada.

Respiração.

Um relógio.


É comum que se use o silêncio para confrontar o tempo.

Na música acorda o sentido da nota seguinte.

Na batalha antecipa a violência da morte.

No amor afina a atenção para o odor dos corpos.

No pensamento abre uma brecha para a divagação.


O silêncio é uma indisciplina.

Carrega o peso ingrato do desafio.

Muito mais do que o grito irado.

Muito mais do que o insulto ou a promessa.

Mais ainda que a ignorância militante.


De vez em quando é necessário um tempo de silêncio.

Uma pausa, um salto, uma falta, um soluço, uma distracção.

Do intervalo regular das rotinas sai um momento de inquietude.

Nas bermas do caminho o reflexo de passos.

No céu os riscos brancos.


No topo da montanha ouve-se, em certos dias, o poder do silêncio.

Rasga-se sobre a mente com uma violência insuportável.

Pesa mais que a tortura de um castigo injusto.

E mesmo assim é necessário um tempo de silêncio.


Como a tortura, como o medo, como a ingratidão.

Só mais tarde saberemos, no ajuste de contas, dos benefícios do silêncio.


Sísifo


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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007
Longe

À distância, o cimo da montanha não se distingue do topo da montanha.

Isso poderia ser uma razão suficiente para não me preocupar em estar num lugar ou noutro.

E foi assim que senti sempre o meu lugar, estivesse no topo ou na base do gigante megalítico.

Entre o alto e o baixo da rigorosa construção dos elementos, não seria eu a escolher ou dizer o melhor.

Para a natureza indiferente, uma e outra coisa têm um lugar que não permite hierarquias ou ordens.

E eu faço parte, queira ou não, dessa indiferença da natureza.


À distância, qualquer que ela seja, a diferença que se encontra entre as diferenças, é mínima.

À medida que a distância aumenta, as diferenças tendem rapidamente para zero.

E seria fácil rever as diferenças e pensar que as diferenças mínimas não chegam a ser diferenças.


Quando a montanha parece, assim como hoje, íngreme e cheia de impossibilidades, olhar para ela a grande distância, ainda que apenas pelo olhar da imaginação, tem esse efeito de colocar as diferenças numa medida que possa ser medida com o curto discernimento que acolho.

Vejo ao longe a altura imensa que transponho e o peso imenso que transporto, e tudo parece menor e mais leve, deixando ao passo o seu ritmo mais fácil e veloz.

Do olhar distante recolho ensinamentos dúbios que auxiliam por momentos a relatividade fortuita dos sentidos e das dores.


À distância, pode olhar-se para o outro lado da terra e não ver senão grãos de areia, e, semeadas nela, cores que encantam e disfarçam as abissais diferenças que para sempre ficam ocultas.


Mas é essa mesma indiferença que me arrasta para o largo horizonte.

Lá em cima vêem-se as mesmas estrelas, à mesma distância e com as mesmas cores.

Mas há mais estrelas e o céu é mais imponente.

Lá em cima a diferença é maior... e a indiferença também.


À distância este ocaso que me preenche é invisível excepto para mim.

Vejo os astros a moverem-se coordenados como se tivessem uma intenção e me ignorassem.

Penso que é o meu o olhar que lhes dá existência e com isso tento sobreviver.

A minha função de observador do céu, dá sentido ao mesmo céu - retira-o da inutilidade.


No topo da montanha falo com os astros que não me escutam.

Tento escutar os astros e ouço silêncio.

O que quer que eu diga esgota-se na curta distância da minha voz.

Passa-se qualquer coisa com a natureza que não se liga a nada nem a ninguém.

Deve ser isso que nos humanos é errado.


Pressupor que a distância pode apagar todos os ecos e todas as diferenças.

Gerar nas mentes o esquecimento.

Diluir com rapidez os sentidos e as formas.

Mas no fim persistir em algum lugar um vazio que só a natureza inorgânica é capaz de suportar.


Sísifo


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Domingo, 24 de Junho de 2007
Surpresas

Neva no topo da montanha.

O frio e a sua mancha branca regressaram.

Os ciclos, desanimados com a rotina, preparam surpresas e tempestades.

Os caminhos tornam-se indiscerníveis e os passos marcam-se pesados.


Transporto um mundo às costas e com ele a minha vida.

Não é muito nem pouco, apenas o essencial.

Restos de coisas que foram restos de outras coisas.

Como o nosso corpo é o resto dos outros corpos que o fizeram.


Mesmo que eu não saiba ou não queira saber, houve alguém antes de mim e haverá alguém depois.

Os passos que ficam na neve serão tão efémeros como o meu medo.


Lá no topo, as horas são mais longas e o frio mais frio.

Agora que a temperatura é baixa ninguém lá vai, e a solidão é sólida.

Em nenhum caminho me cruzo com outra palavra.

Apenas o meu monólogo de louco que não quer ser.


Quando se fala é contra o silêncio.

É o único que perece perante a voz.

E o que digo, e digo porque penso, é mais do que penso e digo.


Há também a voz do vento.

Voz que diz o que sabe, como se soubesse.

E é o vento a coisa mais humana que encontro nos lugares altos onde me empurro.


Para todas as coisas é necessário estar preparado.

Mas há tanta variedade de coisas, que acontece sempre uma surpresa.

E depois, na surpresa que nos surpreende, não há nada de novo...


Esse não é o meu caminho.

Não estou à espera de surpresas.

Estou como se estivesse preparado para todas as surpresas.

Jogo com elas e esqueço todas as suspeitas.

O que vier a seguir é ainda uma daquelas coisas que podem ser.


E o que pode ser, o que está dentro do horizonte das possibilidades, faz parte do saco grande de surpresas que na infância soubemos estar à nossa espera.


Não sou eu que espero as surpresas no topo da montanha.

São elas que estão pacientemente à minha espera.


Sísifo


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