A gravidade atrai os corpos
Sexta-feira, 11 de Maio de 2007
Cansaço

Todos os dias cumpro o meu plano.

O ritmo e a rotina confundem-se.

À distância, no leito do descanso, ocorre-me mesmo uma certa melodia.

Como se numa dada dimensão, às coisas sobrasse significado.


Na distância que se desenvolve repetida sob os meus pés, nos caminhos que vão sendo sempre o mesmo de outros dias, vejo, pela previsão própria de não esperar, o ciclo finito da importância.


No alto de cada dia há o cansaço adequado a eliminar promessas.

Tudo o que aprendi esqueço pelas mesmas razões.

E logo a seguir há o recomeçar do silêncio.


O recado de cada hora é a expressão do seu limite.

Sei, por querer saber, a curta vida das ilusões.

Aprendi, por ignorar, que se ousasse seguir, seguiria sempre.

Vi, por me ocultar, lugares mais além do horizonte.

Perdi, por desejar, uma boa ocasião de ser sentido.

Ouvi, pelo silêncio, o cântico orvalhado da servidão.

Fugi, emparedado, do medo que todos os dias me alimentou.


Todos os dias cumpro o meu plano.

Mesmo que o meu plano são seja meu.

Mesmo que não tenha feito nenhum plano de algum dia cumprir planos.


Há uma cadência própria nos passos que marcham a favor do seu destino.

Latente, na invisibilidade há uma presença rigorosa.

A harmonia é tão aparente como o desgosto de ficar de fora.

E lá fora, no erguer subtil da tempestade, queremos ainda que sejam sinais.


Cumpro o meu ciclo de verdades.

Arrisco apenas o ligeiro ardor dos olhos.

E à noite, enquanto se fazem fogueiras para acender desejos, ocupo o meu corpo a iluminar os limites que não quer.


Sísifo


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publicado por prólogo às 19:34
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2 comentários:
De maria carvalhosa a 12 de Maio de 2007 às 03:05
Sísifo,

Diz-me: é possível que os teus textos, já de si tão magníficos, estejam a ficar cada vez melhores?

Sou bem capaz de ficar a ler e a reler este teu cansaço, embrulhado em silêncio, até, sem o fazer de propósito, tê-lo decorado. Sinto cada frase, cada palavra, entro nas metáforas e outras imagens que usas, mas sou incapaz de falar delas. Lamento. Gostava muito de conseguir expressar todas as marcas que deixas gravadas no meu espírito mas revelo-me de uma grande incompetência. Fica o sentimento!... enquanto continuo a almejar conseguir chegar além dele, até ti, com palavras que façam sentido e não apenas com a notícia da fascinação pelo que me dás a ler.

Quero dar-te um beijo. Não sei se queres recebê-lo. Na pior das hipóteses, fica a pairar num "limbo" até que te decidas a aceitá-lo ou mo devolvas, com ou sem indicação tipo "CTT": "destinatário não encontrado/ausente/recusa receber a encomenda".
:( :)


De prólogo a 12 de Maio de 2007 às 10:48
Quem fica sem palavras sou eu. E como o limbo acabou :) , aceito o teu beijo e retribuo.


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