A gravidade atrai os corpos
Sábado, 29 de Outubro de 2005
Nuvem
Cresci à sombra de árvores de folhas enormes.
Via-se mal o sol e a luz era filtrada pela humidade dos rostos.
A noite começava cedo e a fala, distorcida pela chuva e pelo vento, evocava sempre o esquecimento e a dor.
Respirava-se em esforço de escapar ao afundar na lama.

Não sei como explicar que não sou angustiado.
Como dizer que não padeço de nenhuma depressão.
Como mostrar que não sofro nem estou entorpecido pela dor.
Como fazer ver que não sou triste nem azedo.
Como tornar evidente o prazer que procuro na lucidez.

O que me move nesta intenção diária de arrastar em esforço uma pedra para o topo da minha montanha, é o mesmo que move o bicho da seda na construção do seu casulo;
o sobreiro na segregação do seu casaco de cortiça;
o electrão em vertiginosa corrida à volta do núcleo;
a lava a preencher de violência as entranhas da terra;
a folha que faz questão de crescer na sua simetria breve;
o tigre em espera paciente da ocasião da caça;
a lua a circular mansamente à volta da terra;
a nuvem que se faz e desfaz em formas nunca repetidas;
o universo a expandir-se em todas as direcções;
a luz que tudo faz para ser sempre a mais rápida;
a onda de um mar incansável que embrulha a dócil areia e desgasta lentamente a sólida escarpa;
a abelha cumprindo um destino curto e doce;
o ácido acetilsalicílico a atenuar, à sua maneira, as tensões cerebrais;
o boi ruminando um tempo pacientemente inútil.

Cresci à sombra de árvores de folhas enormes.
Depois, sem nenhum propósito, desafiei os deuses.
Agora olham-me como um vencido, o que é verdade.
Mas o jogo ainda não acabou...

amm


publicado por prólogo às 19:18
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005
Solução
Tudo começa com uma vaga imagem de desejo.
Sobre a mão está colocado o punho da espada à espera de um movimento de cólera.
No lado oposto, sob uma luz flácida e desconfiada, esconde-se um pequeno mistério já abandonado.
Por cima das cabeças roda, como se soubesse porquê, uma ave de penas desleixadas.
E há, inevitavelmente, um avaro tempo que vai passando.

Se houvesse um modo de regressar ao passado, para alterar o momento que tomei a decisão errada, iria lá tomar outra vez a mesma decisão errada.
Repetiria tudo da mesma forma como se a persistência me justificasse.
Por uma questão de justiça.
Por uma questão de fé.

Quando avanço sobre os momentos em que tenho ocasião de me repetir e retiro da frente as incertezas, estou a dizer, com a minha desigual falibilidade, que cada dia não é suficientemente desconhecido para me surpreender.

Os justos, disseram-me há muitos anos, destroem tudo à sua volta por amor à justiça.
Os bons, percebi com o passar do tempo, matam tudo o que à sua volta seja mau.
Os santos, vou percebendo no dia a dia, estrangulam barbaramente todos os demónios.
Os deuses, é cada vez mais evidente, esventram divinamente os humanos.

Agora espero a noite que tarda.
O escuro dos sentidos liberta-me de esconder o rosto.
Sei, com alguma certeza que amanhã voltará o sol.
E isso basta-me.

Mas queria também ouvir passos a aproximarem-se da minha porta e a criar, por instantes, a incerteza de ser alguém que aí viesse para me dizer que, por uma razão que de maneira nenhuma me ocorre, tudo aquilo que penso está errado e que o meu rosto não é o culpado.

Um dia haverá o suficiente para todos mas, então, esses todos já serão ninguém.


(amm)


publicado por prólogo às 19:42
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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005
Essência
O tempo ideal será aquele em que já não pense em tempos ideais.

Havia duas hipóteses para o movimento.
Uma era estimular a simetria das coisas e mantê-las na ordem e na beleza eternas.
Outra era escolher o caos e aprender a viver com ele.

Perspectivas inconciliáveis como o gelo e o sol.
Por isso mesmo, por saber que amo e temo o sol e que sou de gelo e por isso sofro, escolhi o caos.

Mas gosto de, de dentro do caos, cristalizar as formas e olhá-las como desejos e ideais.

Não.
Ainda não percebi tudo.
Não sei sequer o que percebi.
Não sei o que é necessário perceber.
Sei apenas, quando estou lúcido, que isso não é muito importante.

Importantes mesmo são os rostos em cujos olhos me fixo e de que me fui habituando, barbaramente, a desconfiar.

É no olhar que se resolvem as coisas.
No caos da luz e do sol, da vastidão infinita que a luz percorre na velocidade máxima que existe.
Sempre a abrir!
Porquê tanta pressa?

Escolho o caos mesmo que não consiga ser fiel.
Mesmo que às vezes precise de uma solidez arquitectónica para me definir.

Felizmente há o sol, a causa que mais aproximada e persistentemente me colocou aqui a pensar, a sentir e, o mais estranho de tudo, a ter consciência.

amm


publicado por prólogo às 20:01
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Domingo, 9 de Outubro de 2005
Recuo
Na parte mais dramática do meu epitáfio há-de ficar descrita a voz de um tempo que me desafiou a perecer apenas com todas as fomes saciadas.
Aí, nesse pedaço pouco atento da gratidão, estarão também soletrados os passos que dei para deixar de sentir o que quer que fosse pela verdade.
Nada de perturbante.
Pedaços e mais pedaços é tudo o que se vai conseguindo sugerir como vida.

Regresso sempre aos mesmos lugares.
É isso mesmo o regresso: regressar onde já se regressou e voltar sempre.
Repetir com o mesmo método o mesmo erro até deixar de o ser.

Que é que faz de um lugar um lugar de regresso?
Que tem esta pedra cinzenta onde me sento e descanso que me faz voltar?
Que gravidade estranha há por aqui a fazer do meu movimento um elástico vai-vem?

Não, não me submeto.
Não quero ler de novo os mesmos livros nem beber de novo a mesma água.
Agora que o tempo me trouxe para um lugar impossível do universo, em que a mesma improbabilidade se refuta com qualquer gesto de segredo e de silêncio, vou permanecer no lugar que sou porque esse lugar sou eu.

Que estranha esta geografia.
Este globo a girar indiferente aos meus sonhos e à minha respiração.
Este sopro do vento que vem com o ímpeto próprio dos assassinos e submete as vontades ao capricho do acaso.

Talvez esteja escondido no fogo que já não crepita o tal anunciado milagre de conhecer.
Era só isso que eu queria: conhecer.
Quando saltava de pedra em pedra e procurava na folhagem um novo brilho capaz de surpresa, era apenas com essa ligeira intenção de perceber o que se passava, de ter um anúncio sensível do ser.

Sentir e compreender.
Só isso: sentir e compreender.

amm


publicado por prólogo às 21:44
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