A gravidade atrai os corpos
Quarta-feira, 17 de Agosto de 2005
Helena
São várias as maneiras de sentir a força da gravidade.
Todas elas vêm do mesmo lugar de onde vem desde sempre a vida.
Há um acordo secular, milenar talvez, que assegura a persistência de cada uma delas.

Se nos déssemos ao trabalho - se houvesse tempo para isso - de olhar para o modo sério como as crianças brincam, perceberíamos que essa vontade do autêntico se esgota logo a seguir.
Porque logo a seguir a gravidade passa a ser como o céu ou a noite: apenas o que tem que ser.

Olhar com atenção para o vento que leva o cabelo quando o nosso corpo é o pêndulo que faz o ritmo definitivo das sensações, deixa de ser possível sob a chuva de pedras da interpretação.

Venha então esse sonho, agora que já não o sei ler.
Cheguem aqui ao pé do gesto que já se perdeu.
Ouçam o que resta do riso, nesta clausura a que os deuses tudo condenaram.
Toquem ao de leve na poeira que se aconchega na ternura quente do corpo terra.

Não haja ilusões.
Estamos todos à espera.
À espera de outra coisa que não esta.
À espera que o rosto contorcido da autoridade nos diga outra vez que sim ou que não.
À espera de outra coisa que não as que já sabemos impossíveis.

É assim a memória da liberdade: fugaz e distorcida.
Como tudo o que já não é.

Mas estou sereno como Helena.
Pêndulo de Foucault de guarda à marca da mobilidade das coisas paradas.

amm


publicado por prólogo às 23:57
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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2005
Sísifos
Uma pequena colina, uma carga não exagerada, um sistema gravítico, uma dose elevada de racionalidade, uma desconfiança sistemática, um umbigo enorme e temos um Sísifo.

Reproduzem-se como coelhos, sem ofensa para os coelhos, e crescem à beira da realidade por serem muito mais realistas do que é possível, ou mais papistas que o papa, como se costuma dizer.

O seu objectivo na vida é desafiar os deuses. Por duas razões: primeiro porque todos os deuses foram criados por Sísifos; segundo porque ao desafiar-se um deus se cria sempre pelo menos outro.

Um Sísifo nunca gosta que outro Sísifo se revele. Porque o Sísifo não gosta de se ver ao espelho. Não gosta do reflexo nem gosta de se pensar como o próprio erro de que fala.

Há Sísifos que são entidades imaginadas, criadas para afastar fantasmas, como espantalhos em campo de trigo. Mas a maioria dos Sísifos existem mesmo, presos ao seu inconsciente, em masmorras invisíveis, umas vezes mais fortes que outras, mas sempre a tornarem-lhes a vida num inferno.

Nesta condenação que pode ser a vida, o Sísifo escolhe sempre o pior caminho, porque ao recear cair na mão de um deus que lhe dominaria os sentidos, cai nas mãos de outro que lhe domina a mente e a intenção.

Mas o Sísifo é assim. Não há muito a fazer para o libertar. Provavelmente não há nada porque ele olhará sempre para a pequena carga que transporta - e os deuses fazem sucessivamente deslizar para o fundo da colina - como uma penitência e uma injustiça, não dando hipótese à vida de vibrar nos seus contrastes.

O Sísifo, quando por instantes abandona a pedra, opta necessariamente pela dissipação, deixando de lado a grandeza e reduzindo o mundo, o seu mundo, a instantes de ocasional inanidade.

Mas o Sísifo é assim. É estranho quando gostamos de um. Mas a norma actual exige, mais do que ter um 'blog', ser um Sísifo.

Spin Ikivukus


publicado por prólogo às 14:47
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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2005
Espuma
Há anéis de fumo a sobrevoar os areais e a decidir espumas novas sob o ecoar fronteiriço da realidade.
São aerossóis de serenidade que se sobrepõem ao medo das noites entristecidas.
Caem também algumas folhas de árvores não identificadas.
Árvores de sombra rectilínea que despertaram com a sirene entorpecida da polícia marítima.

Acordei várias vezes nos sonhos da noite que passou.
Tinha optado por não me recordar de nada, de nenhuma dessas figuras tristes que povoam o sono como se tivessem aí a ocasião de tornar material a inconsciência.
Não é claro que se façam opções sobre os registos da memória.
Nem é importante o reboliço mental do repouso.

No horizonte, e sabemos como o horizonte se propaga até ao infinito, até ao ponto em que já não vemos, estão a evoluir pássaros que eu julgava extintos como os fogos do verão e da paixão.
Pergunto-me se vale a pena olhar.
Pergunto isso como pergunto muitas outras coisas que sei.
É tudo uma questão de forçar o vento para o lado oposto da dobra milenar do tempo.

Os olhos fechados são sempre sombras do azul da incerteza.
Paralisam os sentidos e arrumam os lábios ao lado das formas mais exigentes do prazer.

Permanece, sempre, este sempre que quer tudo.
Cada palavra está em vez de uma palavra que lhe queríamos superior.
Mas fica a que chega primeiro, sem disputa e sem reflexo.

Mais do que tudo não há nada.
Mais do que sempre não há nunca.
Cada todo é ele próprio a exaustão.

O mal supremo é o bem total de nunca nos contentarmos com pouco.

amm


publicado por prólogo às 18:59
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2005
Nuclear
Era para haver um número grande de maneiras de dizer a verdade.
Todas elas seriam maneiras sublimes de interpretar o mundo e todas elas seriam práticas e eficazes.
Estavam destinadas, desde o início do mundo, a clarificar de vez a essência das coisas e a natureza dos sonhos.
Eram mesmo formas quase mágicas de financiar o fascínio que brota do inesperado e da transmutação.

O momento exacto em que se interromperam as ligações não ficou registado.
Há uma certa subtileza no tempo, ou nos horrores da sua continuidade, que derruba as proporções e lhes retira a lógica.
Aconteceu, diz-se nesses casos.
As forças aleatórias.
O acaso.
A contingência.

Não houve, portanto, a conclusão de nada.
Ficou, a partir daí, dessa data inacabada, a certeza de que tudo o que acaba, acaba da mesma maneira.
Do vago e do improvável ficou declarado que se chamaria ao termo interrupção e o resto ficaria a cargo da memória.

Agora que já passou outro tanto tempo sobre essa insondável ocorrência, preferimos dizer, com a sobriedade possível, que foi melhor assim.

Que faríamos nós da ausência se tivéssemos que presentear a morte com as consequências todas dos destinos que quisemos engendrar e se foram abrindo em multiplicidades infinitas?

amm


publicado por prólogo às 19:24
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