A gravidade atrai os corpos
Segunda-feira, 27 de Junho de 2005
Amor
Tinha toda a lógica desaparecer.
Retirar-me subtilmente deste mercado global da ignorância.
Pedra acima, desejo abaixo, força de içar, medo de cair, sonho de voar...

Tudo se passa como se não fosse.
Perde-se quando se ganha e nunca se ganha mesmo na perda.
Porque há sempre o momento a seguir em que a vitória já perdeu o seu instantâneo sabor.
E porque há as vozes que vindas de dentro soletram novos apetites.

Quase não sei onde está o antigo sentido de ver.
Foram-se elaborando novos modelos de mentira.
Trabalhos fecundos em que se pode juntar à palavra todo o sal da incerteza e mesmo assim rir com gosto do que não parece nem é.
Narrativas rebuscadas nos subterrâneos da sobriedade.

Houve um tempo, recordo-me, em que o meu pensamento se bastava com considerações gerais.
Horrorizado com o esforço do pormenor, fugia desesperado das lentes que ampliavam a realidade.
Nada de estranho para quem nos sonhos apenas buscava o alento para a hora seguinte.

Porque não desapareço então?
Porque não faço em mim o eclipse natural da indecisão?
Porque não deixo de vez de pensar o universo como forma de algo mais que nada?

Aconteceu há muitos anos ter pegado ao colo num corpo que ainda tremia de frescura e ainda não sabia a força que tinha.
Aconteceu pelo acaso da intenção ter ficado retido nessa súbita explosão de ser.
Depois disso é sempre demasiado tarde para desaparecer.

amm


publicado por prólogo às 18:54
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Quarta-feira, 22 de Junho de 2005
Denotação
De cada dia posso tirar um entendimento novo.
É o meu acto predador; é a minha vocação cumulativa.
Desse pecúlio, agregado ao ser e à insistência, alimento as forma mais prosaicas da intenção.

Que fugas ocorrem, então, no alojar das memórias sobre os factos, que fazem desiludir o medo e a contradição?
Que distúrbios se materializam quando, no firme suspiro da aurora, as invenções se tornam, de novo, sólidos artefactos do brilho?

Há, no diagnóstico dos deuses, algumas páginas que me são locais de escura interdição.
Não vejo nem sei.
Fenómeno entrincheirado em negação.
Lago profundo sem espelho nem maré.

Dá tanto gozo dizer como não dizer.
Melhor seria espalhar as letras pelo chão e deixá-las à mercê da ditadura do acaso e, dessa forma, obter surpresas que nunca o tivessem sido.
Formas e fórmulas para perceber que não há nada para perceber.
Encontrar, enfim, o significado no próprio rosto do desejo de significar.

Coragem seria a palavra certa para empurrar os nefastos sintomas.
Mas o deus das miseráveis gotas ficou à espera que chegassem os arautos da boa vontade.
Era necessário que se soubesse.

Fraco sentimento é o de não pensar para além da perfeita inviabilidade do dia.

amm


publicado por prólogo às 23:13
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Sexta-feira, 17 de Junho de 2005
Água
Vejo um filme ao contrário, em que as lágrimas sobem pela face e se alojam calmamente nos olhos.
A mão abandona o rosto e desce lenta para o colo onde a seguir repousa.
A cor vermelha da convulsão perde-se mansa na palidez habitual.

Não há simetria no tempo.
O rosto que pára de chorar já não é o mesmo do início.
E a lágrima perdida e recuperada parece matéria que se formou a partir do nada.

Não há, no rosto recuperado da tristeza, sinais do tempo.
Tudo recuou para uma época em que ainda não era possível ter memória do futuro.
Esquecemos então, na câmara lenta do regresso, pontos obscuros de uma memória apagada.

Não sei de onde veio essa lágrima.
Projecto de lágrima. Tentativa de lágrima. Esforço de lágrima.

Folheei o calendário à procura de um dia propício.
Não havia.
Nada segue em frente se não se esclarecer a origem da lágrima.

Eu disse a quem me quis ouvir - e não havia grande atenção ao meu gesto - que a lágrima haveria de ter tido origem de uma maneira clara e natural e nada no universo se lhe poderia igualar em intenção e dignidade.
Porque há sempre alguma coisa antes e depois de uma lágrima.

Ainda que no momento da lágrima ninguém saiba.

amm


publicado por prólogo às 22:31
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Sábado, 11 de Junho de 2005
Frio
Há fragmentos de gelo na rota das emoções.
Quando passo, nas noites mais húmidas, as arestas do frio fendem-me a face.
São restos do benefício da dúvida.

Claro e evidente é o dia.
Quando nasce.
Eu espero, espero sempre.
Mas há uma diferença na esperança de hoje: já não fico frio, já não congelo, já não adormeço na piedade do tempo.

Julgo saber que tudo não passa de palavras.
E eu passo das palavras.
E eu passo tudo, mesmo o que não passa, seja qual for a razão porque não passa.
Um dia hei-de descobrir porque há uma razão para tudo, porque há uma razão em tudo, porque tenho que ter sempre razão...

Mas também pode acontecer que não descubra.
A razão pede que aceitemos todas as possibilidades, mesmo as possibilidades de não existirem possibilidades razoáveis.

O meu sonho é poder jogar sem saber que jogo.
Ter do jogo a ideia que é uma coisa séria sem nunca perceber que as coisas sérias são jogos.
Máscaras, portanto.
Mas máscaras que nunca se parecem com máscaras.

Deve haver uma razão para as máscaras.
E deve haver outra razão para não haver senão máscaras.
E deve haver ainda uma outra razão para isso não ter importância nenhuma.

amm


publicado por prólogo às 13:23
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Segunda-feira, 6 de Junho de 2005
Trama
Todos os dias há uma nova lei que constrange os movimentos.
Os passos que damos podem, sem que o saibamos, ter-se já tornado transgressões.
E as formas da sobrevivência podem ser agora as formas subtis do caos.

No princípio era o caos e o fim será a lei.
O que distingue o homem de tudo o resto é a intenção de justiça.
Que serei eu então, se ao impulso caótico dos sentimentos que geram a vida e a tornam mais que terra, impuser a lei vigorosamente escrita para determinar a todos um percurso único e rigoroso para a morte?

Se eu conseguisse distinguir lei de justiça, se me fosse permitido separar caos de liberdade, se houvesse no som das vozes uma pequena partícula para a diferença entre viver e errar, lograria regressar ao convívio da vontade.
Mas estou no meio de um deserto.
O horizonte é soletrado apenas pela rasa verticalidade dos raios solares.
O lugar onde hei-de chegar não é ainda o próximo oásis.

Pois.
Entre o chegar e o partir, entre o estar e o caminhar, entre o sonhar e o sentir, entre a força e a doçura, entre o martírio e a pena, hei-de sempre hesitar.

São muitas as perguntas sem resposta.
É delas que eu mais gosto.
Justo quer ser o homem porque o mundo não o é.

Amo a ambiguidade.
Porém, odeio a ambiguidade.

amm


publicado por prólogo às 12:03
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Sábado, 4 de Junho de 2005
Secura
Não soube nunca como explicar a minha aversão ao vento.
Uso-o para flutuar no tempo e não percebo as palavras que me traz.
Há ocasiões em que há no vento alguma ternura mas não chega para me enredar.

Quando, noutra era em que o ar se movimentava com a secura dos profetas, eu quis, por razões que não ouso recordar, aproximar-me da fonte de todas as tempestades, foi-me dito, com a voz grossa que acompanha todas as certezas do mundo, que cada nova vibração dos sentidos deveria ser destruída à nascença como se faz com as pragas que rastejam e tentam entrar na nossa casa.
Iniciei então caminhos recheados de ódio e procurei que nada me retirasse do estreito espaço da indiferença.

Não foram decisões!
Não foram escolhas!
Não foram sequer destinos.

Agradava-me pensar que era o vento.
Solto sobre a cabeça, fazia-me sempre rodar para o lugar certo.
Empurrava-me, com toda a força que tinha, para o lado onde não estavam as surpresas nem os animais agrestes.
Era para aí que eu voava, perdida a vontade de lutar e de sentir.

Depois houve um tempo de esquecimento.
Mas ficou intacta a recusa do vento.

amm


publicado por prólogo às 15:08
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2005
Incerteza
Estão à espera que eu descreva.
Estão à espera que eu diga: era assim!
Mas eu não confio em mim.

Do lado de lá da aparência, naquilo que chamaríamos a essência, não se encontra coisa alguma.
É uma questão de estatística.
Há muito que se sabe, com razoável grau de precisão, que não se pode estabelecer uma correlação entre aquilo que se sente e aquilo que se é.

Eu tenho as minhas dúvidas.
E tenho o meu método de as ter.
Olho para tudo como se fosse uma ilusão e entretenho-me a ver o seu mecanismo interno.

Claro que é absurdo.
Não é aí que o problema está.
Admitindo que há um problema...
Porque, à noite, depois de ter abordado a sede com líquidos adequados, os problemas morrem.
E também isso é absurdo.

Quando, ao caminhar, coloco um pé à frente do outro, parecendo a quem está à minha volta que sei para onde vou, não faço mais do que participar alegremente no faiscar ruminante da vida, dando ao prazer a sua oportunidade e ao riso a sua lei.

Nada consegue ficar determinado antes do nascer do dia.
E, por mais que se esforce, o dia não nasce.

amm


publicado por prólogo às 22:25
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