A gravidade atrai os corpos
Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2007
Crédito

Não procuro o mistério nem a assombração.

Não me interessam os lugares que servem de esconderijo às lendas.

Desprezo realmente a ocultação e o truque.

Não tenho paciência para os enfeites nem para as divindades.

Aborrecem-me de morte os exercícios de adivinhação.

Não consigo olhar duas vezes para as ilusões fanáticas.

E a magia serve-me apenas para brincar.


Prefiro dizer que não sei.

Que ainda não, e que talvez nunca venha a saber.

Pensar a ignorância como o estado em que se está à espera.

Pensar o desconhecido como lugar onde ainda não cheguei.


Mas este não é hoje um lugar muito habitado.

Só veja ânsia de acreditar.

Só vejo ânsia de receber.

Dificilmente encontro alguém à procura.

É raro o rosto que aceita morar no intervalo entre a escuridão e a luz.


Perfilam-se no horizonte exércitos rigorosos a defender verdades.

Constroem-se muros a separar mundos.

Matam-se em cada reduto todos os sinais de crítica e razão.

Rendem-se os pensamentos à sabedoria enlatada.

E acredita-se, acredita-se muito, acredita-se em acreditar.

O crédito como Deus acima de todos os deuses.

Alinham-se contra uma parede os corpos que não alinham.


Estaremos a chegar ao fim da linha?

Não sei...

Não procuro o mistério nem a assombração...


Sísifo



publicado por prólogo às 10:42
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6 comentários:
De maria carvalhosa a 4 de Janeiro de 2007 às 17:11

"É raro o rosto que aceita morar no intervalo entre a escuridão e a luz".

Permito-me discordar desta tua afirmação, Sísifo.
Contrariamente, penso que a maioria opta por morar na penumbra, onde as hipóteses de dissimulação "à medida", largamente procuradas, são mais favorecidas.

Beijo.

Maria


De luci a 14 de Janeiro de 2007 às 17:53
fiquei estupefacta. gostei muito, nada a acrescentar...


De lua a 14 de Janeiro de 2007 às 22:29
Curiosa a consciência de que se vive aí, entre a escuridão e a luz, a contemplar uma e outra e com a possibilidade de medir os passos para lá chegar: às Trevas ou à Plenitude. Grande o controle. Difícil a decisão! Vive-se a encruzilhada então. Será um esconderijo, onde enfeitamos as nossas próprias lendas? alimentamos a nossa divindade? alinhamos os nossos muros? e acreditamos na nossa diferença? Estaremos a negar tudo? Cada um tem o seu mundo. A matriz, porém, parece ser sempre a mesma.

Um beijo enorme, meu lindo.
Estás cada vez melhor. Apeteceu-me meter contigo.
Escreve-me de volta.


De Titeuf a 15 de Janeiro de 2007 às 21:14
" Colour floods to the spot, dull purple.
The rest of the body is all washed out,
The colour of pearl.

In a pit of rock
The sea sucks obsessively,
One hollow the whole sea's pivot.

The size of a fly,
The doom mark
Crawls down the wall.

Tha heart shuts,
The sea slides back,
The mirrors are sheeted."

Sylvia Plath.


De Titeuf a 15 de Janeiro de 2007 às 21:31
" Colour floods to the spot, dull purple.
The rest of the body is all washed out,
The colour of pearl.

In a pit of rock
The sea sucks obsessively,
One hollow the whole sea's pivot.

The size of a fly,
The doom mark
Crawls down the wall.

The heart shuts,
The sea slides back,
The mirrors are sheeted."

Sylvia Plath.


De ivamarle a 30 de Janeiro de 2007 às 22:49
mal tomei conhecimento desta tua magnífica escrita, através da Elipse, tomei a liberdade de te linkar em ambos os meus blogs, espero que não te importes.
"Pensar a ignorância como o estado em que se está à espera.
Pensar o desconhecido como lugar onde ainda não cheguei." só quero a lucidez que me permita sempre estes estados de espírito...


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