A gravidade atrai os corpos
Quinta-feira, 5 de Outubro de 2006
Sempre

Há quem pense que a montanha a que subo, perdendo-me na dor e na sombra, é o conhecimento.

Seria então a minha vida uma metáfora, um jogo de palavras.

E daí se concluía que a esfera que teimosamente faço rolar montanha acima, nada mais seria que o esforço necessário a todo o saber.

Nada disso é verdade a não ser o jogo de palavras.


Tal como as espécies que não se adaptam, extinguiram-se os deuses há muito tempo.

Inadaptados também, postos à margem, numa memória apenas evocada pelo poder, os deuses saíram de cena abandonando o mundo à sua sorte.


O tribunal que me condenou já não existe.

Caducou juntamente com a esperança e a justiça.

Finou-se por falta de condições de aplicabilidade.


Quem fiscalizaria a dor do condenado?

Quem daria ordem de liberdade?

Quem premiaria os bem-comportados?

Quem enterraria os mortos?


Foram-se embora os deuses com a sua autoridade e levaram também a razão do medo e a força da obediência.

Levaram consigo as trevas mais evidentes e o cheiro inebriante do Olimpo.

Saíram daqui mergulhados no próprio tédio, incapazes de saber o que fazer com tanta força.

Abandonaram os deuses os erros que criaram e esconderam a cara de vergonha.


Eu fiquei o erro que sou.

Cumpro a minha pena como sempre fiz.

Subo à montanha empurrando a esfera e lá em cima deixo-a rolar testando a constância da gravidade.


A minha condenação foi para sempre.

Não é preciso esperar que venha o carcereiro e me solte.

Nada é mais solitário que a eternidade.


Sísifo



publicado por prólogo às 00:17
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3 comentários:
De Mário a 8 de Outubro de 2006 às 00:39
Prezado "Sisifo"

Tenho vindo a adiar um comentário meus aos textos aqui expostos, embora os leia regularmente ( não muito regularmente..é certo)

Na verdade nem sei o que comentar, e nisto já reside paradoxo que chegue, não sei sequer se gosto, sei por certo que admiro, tal como admiro o outro autor que andou de torno disto, o tal Camus, que por certo não é desconhecido...por isso poupo-me a estabelecer paralelismos.. enfim...

Só não percebo se é a vida que é absurda, ou absurdo tentar tourear o absurdo da vida. Bom pelo menos é confortavel reflectir sobre isto, escrever umas quantas relexões, dar-lhes trabalhados toques metaforicos e literarios, enquanto nos sentamos talvez tranquilamente a escrever sobre isto.

Outros neste momento estão a apagar fogos, ou a arriscar a vida ( ainda que absurda) por alguem desconhecido..( isto sim talvez absurdo), outros não tem sequer tempo para reflectir, sobre o absurdo da vida, passam algumas horas num hospital a tentar salvar vidas...enfim...

O nosso velho fernado pessoa tambem passeava por estes jardins, mas não me lembro de ter lido referencias sobre ele apagar nenhum fogo, ou trepado a uma arvore para salvar um gato preso,

Uns escrevem e reflctem sobre o absurdo da vida, a existencia , o que é ou o que podia ter sido, como se a terra em vez de seguir o modelo heliocentrico , girasse em torno dos "se´s" ...

Outros, não reflectem sobre o absurdo, agem não lhes resta tempo ou o conforto de uma cadeira para qualquer devaneio poético filosófico..

Há quem sacrifique uma existencia absurda para salvar outra existencia absurda

mas a pedra continua a rolar, e enquanto rolar e se repetir na queda, pelo menos estamos livres da mudança...é que ás vezes a mudança...assusta, antes a rotina!

E de médicos, loucos e vitimas todos temos um pouco.

Os textos são muito bons~

Abraços


De prólogo a 8 de Outubro de 2006 às 21:39
Li "O mito de Sísifo" do Camus há muitos anos, com idade para não o compreender. Não voltei lá embora esteja aí por casa o exemplar. Ficou-me uma consciente simpatia pela personagem mítica e, com alguma probabilidade, alguma identificação inconsciente. Tinha sido empurrado para o Camus pelos calhamaços autobiográficos da bem comportada Simone de Beauvoir. E depois do Estrangeiro caí no Sísifo. Esteve em banho-maria até que me serviu de 'nick' para conversas 'online' e agora de albergue a textos que de outra maneira iriam para a gaveta. É consolador saber que há pessoas que aqui vêm ler. E mais ainda que se dêem ao trabalho de comentar. Só posso agradecer, Mário.


De somedaysomeway a 17 de Novembro de 2006 às 22:23
O texto é verdadeiramente excelente, mas tinha de comentar o seguinte comentário. Por favor não me levem a mal.
-» Outros, não reflectem sobre o absurdo, agem não lhes resta tempo ou o conforto de uma cadeira para qualquer devaneio poético filosófico..
{é verdade sim, são aqueles que se deixam levar pelo dia a dia da vida, não param p/ reflectir nem analisar as consequências dos seus actos. PROVAVELMENTE SÃO OS MAIS FELIZES...}
-» Há quem sacrifique uma existencia absurda para salvar outra existencia absurda
{cada um enfim segue a sua "missão" nesta vida}
-» mas a pedra continua a rolar, e enquanto rolar e se repetir na queda, pelo menos estamos livres da mudança...é que ás vezes a mudança...assusta, antes a rotina!
{na rotina há muitos vicios, coisas que podem mudar e outras que dificilmente se alterarão pelo hábito, convivio, já conheçes todos os contornos, etc. etc.. Ao passo que com a mudança, quer queiramos, quer não, vamos deparar-nos com: crescimento... evolução... e se soubermos estar atentos, talvez O CONFRONTO COM O NOSSO VERDADEIRO CAMINHO. Eu sei muito bem, que "as pessoas" hoje em dia assustam e dão medo, perderam a noção...}
-» E de médicos, loucos e vitimas todos temos um pouco.
{ora bem}


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