A gravidade atrai os corpos
Segunda-feira, 3 de Abril de 2006
Divagação

Sobre o topo da colina há hoje um nevoeiro denso.
Nada se vê para além do alcance dos passos e o retorno da minha voz chega abafado pela cegueira da humidade.
Temo por isso que o meu trabalho hoje me não deixe chegar à satisfação.

São muitos os truques que o tempo inventa para tirar dos meus gestos o sorriso.
Ardiloso é o tempo.
Dá-se, para que nos lembremos das coisas antigas, mas espera que a ignorância chegue sempre primeiro.
Compra cada elemento da nossa memória a um preço de saldo e devolve apenas o que lhe convém para os seus inconfessáveis desejos.

Paciente é o tempo.
Está antes de nós e fica depois de nós e esquece-se de nós e continua sempre.
Não se pode confiar nele.
Em nenhum tempo.
Seja ele qual for há-de tentar que sejamos, mais tarde ou mais cedo pura ilusão.

Hoje fez-se um nevoeiro denso como que a tentar que eu desistisse.
É penosa a subida e o esforço duplica para vencer a dureza do caminho.
Partilho as gotas de água do meu rosto com as gotas do tempo, vítima e algoz lado a lado como velhos e inseparáveis amigos.
Mesmo no topo desta montanha, quase no topo, portanto, pomos o barco a velejar; por tão pouco.

Gosto de percursos teoricamente perfeitos.
É aí, nessa linearidade que o pensamento encontra atravessando os caminhos mais complexos, que sinto o valer a pena do existir.
Pega-se em símbolos, em artefactos rigorosamente inúteis, que não se comem, nem se bebem, nem nos dão continuidade, e constrói-se uma forma, ainda ausência, mas metamorfose sentida do nada.
Aos artifícios do tempo respondo com um sabor de sonho.

Haverá sempre muitos caminhos possíveis.
Todos bons e todos maus.
Todos inúteis e todos perfeitos.
Todos rigorosamente certos e todos caoticamente errados.
No fim, seja qual for, estará sempre uma frase a dar-me alento, um pássaro a sobrevoar impossíveis, uma nota de música a acomodar contrastes, um fio de aranha a sustentar-me, uma estranha ordem a desafiar-me, um incompreensível infinito...
Sei que nada disto vale a pena, mas sei que é isto que vale a pena.

No meio do nevoeiro, que eu olho em vez de ver, está o objectivo.
Não o vejo e por isso não sei se está lá, mas avanço, avanço sempre, fazendo do avanço o meu desejo.
Sigo cauteloso, temente à surpresa de um instante que quebre a magia de querer.
À frente, lá à frente, está o tal lugar que presumo meu destino.
Mas o meu destino só o saberei depois.
E...

Sísifo



publicado por prólogo às 19:47
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