A gravidade atrai os corpos
Segunda-feira, 11 de Abril de 2005
Continuidade
Há entre os núcleos dos átomos espaço bastante para construir uma catedral. Mas aí a atmosfera é agreste e os ventos electrónicos. Por isso, pelas condições ambientais adversas, enche-se o universo de vazios e de terras de ninguém. Por isso também, as distâncias tornam-se enormes quando queremos chegar mais perto daqueles que nos esperam.

Não há muito a fazer. Os lugares inabitáveis reproduzem-se e tomam a forma de reservas de identidade. O espaço só é espaço porque é vazio. O espaço é o espaço que há entre as coisas. E entra cada duas coisas que eu queira que sejam coisas haverá sempre um espaço que imperativo as separa. E nunca podemos falar das coisas sem pensar que é muito mais o que se diria se falássemos abertamente do espaço que há entre elas.

Mesmo assim, nós que amamos o espaço, queremos ter com ele uma relação séria. Dizemos então que há espaços grandes, espaços pequenos, espaços infinitos, espaços tridimensionais; espaços com tempo e espaços sem memória; espaços escondidos e espaços comprometidos; espaços de odisseia e espaços curvos; espaços correctos e espaços confinados.

Tínhamos prometido, em tempos, que qualquer sinal dado pela trombeta do Apocalipse, seria definido como um momento mais, de aproximação ao lugar onde não há sombras. Tínhamos prometido. Tínhamos prometido uns aos outros.

Talvez tenha sido uma promessa sem convicção. Uma promessa de descrentes. É compreensível que sim. Porque diabo haveríamos de acreditar no que quer que fosse?! Não estávamos nós a ver as estrelas e ao mesmo tempo a duvidar? Não tínhamos nós a percepção de que não éramos deste lugar e continuávamos a sentir-nos em casa?

Foi azar. Disseram alguns. Foi azar disse eu. Poderia ter acontecido outra coisa qualquer. É sempre estranho que sendo o espaço infinito permaneçamos num lugar apenas. Agora poderia sentir-me ao mesmo tempo aqui e em Andrómeda, admitindo que aqui não é Andrómeda. Ou poderia estar em muitas galáxias ao mesmo tempo.

É apenas uma hipótese. Certamente não me sentiria melhor. Certamente teria outros problemas mas não deixaria ter problemas. Certamente sentir-me-ia cansado ao anoitecer, mesmo que não anoitecesse nunca por estar ao mesmo tempo em lugares diferentes.

É cansativo. Ver o mesmo tempo a passar em mais do que uma posição do espaço. O tempo a passar duas vezes por mim sem me reconhecer. Enganado o tempo por eu não estar, como ele esperava, num único lugar.

Isso sim agrada-me. Ver o tempo a esperar por mim.

amm


publicado por prólogo às 22:17
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